segunda-feira, 8 de março de 2010

Transplante de traqueia

Médicos Belgas conseguiram realizar com sucesso um transplante de traqueia. Para tal, deixaram o órgão implantado no braço da paciente durante cerca de dez meses, para que os novos tecidos pudessem crescer e prevenir a rejeição. Foi a primeira vez que a técnica foi aplicada com sucesso usando um órgão tão grande.
A paciente, Linda de Crookck, de 54 anos, viveu com dores e desconforto permanentes durante cerca de 25 anos, após a sua traqueia ter sido esmagada num acidente de viação. Duas peças de metal foram colocadas para manter o órgão aberto para a passagem de ar: "Antes do meu transplante, a minha vida estava a tornar-se cada vez mais insuportável, com dor contínua e pontadas na minha garganta", conta.
Procurou médicos que pudessem ajudá-la e descobriu na internet que uma equipa de especialistas do hospital da Universidade Católica de Leuven tinha realizado transplantes semelhantes com órgãos menores. Surgiu assim uma nova esperança.
Após encontrar um doador, a equipa, liderada pelo cirurgião Pierre Delaere, envolveu o órgão com tecidos da paciente e implantou-o no seu antebraço esquerdo. A traqueia foi ligada a uma artéria para receber sangue. O braço foi enfaixado e engessado. Segundo ela, foi estranho e desconfortável. A paciente também teve de tomar remédios para impedir que o seu sistema imunitário rejeitasse o novo órgão.
Hoje, apesar de a traqueia recebida ainda ter algum tecido do dador original, o tecido da paciente envolve o órgão e, por este motivo, ela não precisa de continuar a tomar medicamentos imunossupressores.



Sónia Moreira, 8 de Março de 2010

sábado, 6 de março de 2010

Stinne Holm é a primeira mulher a ter duas crianças após transplante de tecido ovárico

Pela primeira vez, uma mulher, Stinne Holm, deu à luz duas crianças saudáveis, em gravidezes separadas, após ter realizado um transplante do tecido ovárico – que lhe tinha sido removido e congelado, durante o tratamento que fez no seguimento de ter desenvolvido cancro, e reposto após a cura.

 

Claus Yding Andersen, o seu médico, reportou o caso na passada quinta-feira no jornal «Human Reproduction» – uma publicação prestigiada na área da medicina reprodutiva. “Esta é a primeira mulher no Mundo a ter duas crianças, em gravidezes separadas, como resultado de um transplante de tecido de reserva congelado”, disse.

O nascimento da primeira filha, Aviaja, foi em Fevereiro de 2007 e, em Janeiro de 2008, Stinne Holm recorreu a uma clínica de reprodução assistida porque estava a pensar em ter um segundo bebé. Recebeu tratamento para fertilização e em Setembro de 2008 concebeu a segunda menina, Lucca.

Andersen assinala ainda que este caso assegura "a criopreservação de tecido ovárico como uma método válido de preservação de fertilidade e que pode também encorajar a desenvolver novas técnicas de procedimento clínico, em mulheres que se sujeitem a tratamentos que poderão danificar os seus tecidos”.

Até agora, já nasceram nove crianças (incluído as de Stinne Holm Bergholdt) resultantes desta experiência. Três das mães, também na Dinamarca, foram igualmente tratadas por Andersen, que é ainda docente em Psicologia Reprodutiva Humana na Universidade de Copenhaga. Todas as gravidezes ocorreram na Europa.

Bergholdt é também uma das autoras do estudo e quando a doença lhe foi diagnosticada, em 2004, decidiu remover e congelar parte do seu ovário direito, antes de iniciar a quimioterapia; já que o esquerdo lhe foi retirado devido a um quisto detectado anteriormente.

Funcionamento normal

O tratamento foi bem sucedido, mas como esperado, a medicação provocou-lhe menopausa. Em Dezembro de 2005, seis pequenas bandas de tecido foram-lhe transplantadas no que restava do ovário e este recomeçou a funcionar normalmente. Após estimulação ovárica, concebeu a primeira filha, Aviaja, e, quando decidiu engravidar pela segunda vez, recorreu à clínica de fertilidade de Andersen, para retomar o tratamento e foi quando se apercebeu que já estava grávida normalmente.
À segunda é milagre

Bergholdt referiu: “Quando soube que estava grávida pela primeira vez fiquei muito contente, mas também com medo e bastante céptica, porque achei difícil acreditar que o meu corpo voltara a funcionar. O meu cancro foi diagnosticado tardiamente por os médicos não terem levado as minhas queixas a sério, na altura, e não paravam de me dizer que estava tudo bem. Por isso, é que duvidei que fosse verdade quando me disseram que ia ter um bebé. Depois, comecei a acreditar e a aproveitar todos os aspectos da gravidez”.

Quando recorreu à clínica e se apercebeu que já estava grávida e tinha acontecido naturalmente, sem o tratamento de fertilidade, considerou que tinha sido “um milagre”. No entanto, Bergholdt antecipou que de momento, ela e o marido, ainda não decidiram se querem ter mais filhos. “As crianças ainda são muito pequenas e requerem bastante atenção, mas talvez daqui por uns anos comecemos a pensar nisso novamente”, referiu.

“Isto demonstra que o tecido original transplantado continuou a funcionar durante mais de quarto anos e que Bergholdt continua a poder conceber crianças saudáveis. Ela continua a ter o seu natural ciclo menstrual e agora está mesmo a tomar anti-conceptivos para não engravidar novamente”, contou o médico.

Stinne Holm dispõe de mais bandas de tecido ovárico, num tanque em líquido de nitrogénio – podendo manter-se funcionais durante mais de 40 anos –, caso queira realizar um novo transplante de forma a continuar a manter o funcionamento ovariano.


Artigo publicado por Ciência Hoje, em 24 de Fevereiro de 2010
Vanda Craveiro, em 6 de Março de 2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

Porque os órgãos não caem das árvores...

The Tree of Life


A idade média dos dadores de órgãos aumentou 150% em 15 anos. Nessa altura, a média era de 20 anos e hoje o dador tem 50. A evolução está ligada à redução drástica dos acidentes de viação, trabalho e domésticos, que vitimavam pessoas mais jovens. Para já, não há escassez, mas o director da unidade de cirurgia cardiotorácica dos Hospitais Universitários de Coimbra, Manuel Antunes, calcula "que dentro de cinco a dez anos possa haver uma redução na colheita" de órgãos adequados a doentes mais jovens.
Para já, há margem para a colheita de corações e pulmões aumentar. Porém, recorde-se que estes órgãos não se regeneram, o que significa que não serão adequados para todos os pacientes, especialmente mais jovens.
Uma solução é aumentar a colheita em dadores cadáveres mais velhos, uma área onde há muito trabalho a fazer mas já há soluções, uma vez que os órgãos destes dadores são bons e ainda há 40% de dadores jovens para responder às solicitações.
Noutros órgãos, caso do rim e fígado, a solução pode passar pela doação de um dador vivo, assunto já referido no blogue. As crianças, por exemplo, encontram órgãos compatíveis sobretudo em dadores pediátricos ou vivos.

Só entre 2007 e 2008 Portugal passou assim de uma taxa de 23,9 para 26,7 dadores cadáver por milhão de habitantes. Curiosamente, no que respeita à colheita de órgãos e tecidos em cadáveres, a legislação em Portugal é das mais avançadas, ao presumir que todos os cidadãos são dadores depois do falecimento, excepto os que se registaram no Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA). Apesar da legislação facilitadora, paradoxalmente tem sido crónica a falta de órgãos para transplantação.
Essa legislação repercutiu-se não só na colheita de órgãos e tecidos em cadáveres, mas também, e de forma relevante, no que respeita à doação de órgãos a partir de dadores vivos. A Lei n.º 22/2007 que alterou a Lei n.º 12/93, relativa à colheita e transplante de órgãos e tecidos de origem humana, veio facilitar a doação em vida, retirando os constrangimentos do grau de parentesco e permitiu aumentar significativamente o número de transplantes a partir de dador vivo desde que foi publicada a sua regulamentação, deixando muitos cidadãos exprimirem os seus sentimentos de solidariedade, doando um órgão a um cônjuge ou a um amigo, o que a anterior legislação impossibilitava.


O Coordenador Hospitalar de Doação de cada hospital é também fundamental, tendo como funções detectar e avaliar os possíveis dadores no hospital, desde o serviço de Urgência até aos serviços hospitalares onde possam vir a ser tratados, designadamente nas áreas de cuidados intensivos. As funções do CHD são tanto mais preponderantes quanto se sabe que perante a diminuição, por razões conhecidas, de dadores vítimas de traumatismo craniencefálico.
Perante esta realidade, há que alargar a selecção de dadores em morte cerebral às vítimas de AVC, o que implica termos dadores em faixas etárias superiores e com co-morbilidades mais frequentes. Por isso, todas as situações de oportunidade para optimizar o aumento do número de dadores têm de ser encaradas, para que não se percam potenciais dadores, sobretudo do foro não traumático, e se consiga proporcionar o aumento desejado de colheitas de órgãos. Isto implica mudar comportamentos e alterar conceitos, designadamente no que respeita ao conceito de dador «expandido», subjacente à maior idade e às co-morbilidades destes doentes, e que eram há anos rejeitados como tal. Esta será uma realidade que, doravante, teremos de encarar, mas com um significado muito positivo no que concerne à diminuição da sinistralidade rodoviária no País.

O processo de doação é uma oportunidade de vida, uma oportunidade de utilidade, uma oportunidade de renascer, mas tudo isto só pode ser entendido, quer pelos familiares dos dadores, quer por nós próprios, se conhecermos claramente todo o processo que envolve a doação de órgãos, também já referido.
A Lei Portuguesa, altruísta nesta matéria, dizendo que todos nós somos dadores se, em vida, conscientemente e voluntariamente não declararmos o contrário, deveria fazer de Portugal um país com um número de dadores tão bom quanto outros países na Europa, mas isto ainda não acontece, e daí a necessidade de aumentar o número de dadores em Portugal.

Órgãos colhidos em Portugal

Cada dador pode salvar 7 vidas, cada dador é um ser único e querido, para a sua família, e é nesta dicotomia, que se apresenta a dificuldade da doação, e outras dificuldades menores, mas ainda assim não desprezíveis, como o trabalho que para os Intensivistas e Enfermeiros das Unidades de Cuidados Intensivos dá a manutenção do dador, mas estas podem ser resolvidas de um modo cabal, depois de reconhecido o seu valor e sua importância.

Verónica Cabreira, 4 de Março de 2010