quarta-feira, 14 de abril de 2010

Americanos expandem células estaminais em laboratório

Um estudo publicado na "Nature Medicine" revela que o processo de expansão em laboratório de células estaminais do sangue do cordão umbilical "é possível e é seguro", o que aumenta "significativamente a velocidade da recuperação da hematopoiese [produção de células sanguíneas pela medula] e a eficiência dos transplantes" em leucemias.



Este processo poderá erradicar com a actual maior restrição ao uso das células estaminais do sangue do cordão umbilical em adultos, que se prende com o facto de algumas amostras não conterem células em número suficiente para poderem ser utilizadas, com sucesso, em transplantes.



Colleen Delaney, da Division of Clinical Research do Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle (EUA), é a líder da equipa de investigação que desenvolveu uma metodologia optimizada e clinicamente viável, que permite expandir as células estaminais progenitoras do sangue do cordão umbilical, tendo em vista a sua utilização clínica, sendo este "o primeiro relato de um enxerto rápido proveniente de células estaminais progenitoras expandidas 'ex vivo'".



Os investigadores realizaram ainda um ensaio clínico de fase um, em que o sangue do cordão umbilical, manipulado daquela forma, foi transplantado em humanos, após um tratamento com quimio e/ou radioterapia, tendo em vista a erradicação das células sanguíneas tumorais.



Segundo David Ferreira, especialista em imuno-hemoterapia e responsável médico da Crioestaminal, o mais importante neste estudo “é o facto de se pegar num determinado número de células e, com processos laboratoriais, multiplicá-las", revelando-se a aplicação segura nas pessoas que as receberam, sendo que "este avanço científico vem comprovar o potencial que representa hoje em dia a criopreservação das células estaminais do sangue do cordão umbilical".



Contudo, o especialista alerta para a necessidade de novos estudos que possam avaliar a eficácia do processo, nomeadamente "ensaios clínicos mais alargados, de fase dois e três".



in Ciência Hoje (12 de Abril de 2010)
Vanda Craveiro, em 14 de Abril de 2010

sábado, 3 de abril de 2010

Colheita e Transplantação de órgãos em Portugal

 
O processo normal para um transplante é iniciado por um médico que em consulta com o doente lhe indica o diagnóstico e a terapia mais adequada que neste caso poderá passar por um transplante. O doente terá sempre o direito de escolha entre fazer ou não fazer um transplante depois de devidamente informado pelo médico. Caso escolha fazê-lo, o médico inscreve o doente numa lista de espera, depois de reunir informações de compatibilidade através de análises de sangue e de tecidos, ficando estas guardadas a aguardar pela disponibilidade de um dador compatível.

A partir daí, o período de espera é variável e geralmente um pouco demorado tendo em conta a pouca disponibilidade de órgãos para transplante. Quando um órgão fica disponível, o doente é contactado para que num espaço de tempo muito reduzido a intervenção se realize. Os órgãos regra geral não sobrevivem muito tempo fora do corpo humano, pelo que se um doente não estiver contactável perde imediatamente a sua vez para outro.

Em Portugal colhem-se os seguintes órgãos, tecidos e células:

• Órgãos: rim, rim + pâncreas, coração, pulmão, fígado;
• Tecidos: pele, válvulas, vasos, peças osteoarticulares, membrana amniótica, córnea;
• Células: percursores hematopoiéticos (medula óssea e cordão umbilical) e células reprodutoras.
Os tecidos ou órgãos doados podem provir de uma pessoa viva ou de alguém que acabou de falecer com o diagnóstico de morte cerebral. É preferível contar com tecidos e órgãos de um dador vivo, porque as possibilidades de que sejam transplantados com sucesso são maiores.

No entanto, órgãos como o coração, os pulmões e os componentes do olho (a córnea e o cristalino) só podem provir de alguém que tenha morrido recentemente, em regra devido mais a um acidente do que a uma doença. Os dadores mais adequados são aqueles que apresentam uma idade inferior a 35 anos, ou 40 no caso das mulheres e sem historial de doença cardíaca. Em alguns casos, várias pessoas podem beneficiar do transplante de órgãos provenientes de um único cadáver. Por exemplo, teoricamente um dador poderia fornecer córneas para duas pessoas, rins para outras duas, um fígado para um doente, pulmões para dois e ainda um coração para outra pessoa.

Os cinco gabinetes de coordenação de colheita de órgãos e transplantação (GCCOT) funcionam nos hospitais de Santo António e de São João, no Porto, nos Hospitais da Universidade de Coimbra e nos hospitais de São José e de Santa Maria, em Lisboa. Cada gabinete integra diversos hospitais onde é autorizada a colheita e a transplantação de órgãos.

A detecção e validação do dador competem ao coordenador hospitalar de doação, que dá conhecimento disso ao seu Gabinete Coordenador. Assim, quando o óbito por morte cerebral de um paciente é confirmado, numa das unidades de cuidados intensivos de um Hospital, cabe ao Gabinete de Coordenação de Colheita de Órgãos e Transplantação avaliar se o paciente preenche ou não os critérios da colheita.

Primeiro, é necessário verificar se o paciente não está inscrito no Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA), isto é, se não manifestou em oposição à colheita de órgãos. De seguida, providencia-se o envio de sangue e gânglios do dador para tipagem e outras análises no Centro de Histocompatibilidade (três no País: Norte, Centro e Sul).


Compete também ao Gabinete Coordenador organizar a equipa de colheita multiorgânica com todo o material de que necessita, bem como assegurar o transporte, da equipa, do material e dos produtos colhidos, quando o dador se encontra num hospital diferente daquele onde está o Gabinete sediado. Habitualmente, uma extracção dos órgãos doados oscila entre 3 e 6 horas mas este intervalo depende sempre do tipo e das características dos órgãos e tecidos doados.

Compete ainda ao Gabinete transportar os órgãos aos hospitais onde vai ser feito o transplante. A escolha dos doentes em lista de espera para transplante de um órgão é feita segundo critérios biológicos de grupagem ABO e tipagem HLA-DR e cross-match. São considerados critérios de prioridade, como seja o grau de urgência, a idade, peso e outros.

Em princípio, a distribuição é regional, obedecendo às áreas de influência dos cinco gabinetes. Nos casos de urgência, a alocação é feita a nível nacional. No entanto, está protocolada com a ONT espanhola a possibilidade de fazer apelo urgente de fígado para esse país e para qualquer um dos órgãos colhidos em que não haja um receptor compatível em Portugal, os órgãos são oferecidos aos congéneres europeus, que podem ter oportunidade de transplantá-los.

Todo o processo que envolve a colheita, a deslocação e o transplante dos órgãos tem de ser rápido, dado que o tempo de espera dos órgãos é muito limitado, como já foi referido. Para o rim, o normal são 24 horas, o fígado e o pâncreas, até 12 horas e o coração e os pulmões só podem manter-se durante 6 horas.
A complexidade da cirurgia do transplante e a impossibilidade da sua programação, sempre dependente da ocorrência de um dador, torna imperioso manter as equipas com o nível de preparação técnica necessário e a disponibilidade constante que os programas exigem.
Já no circuito dos tecidos e células, interpõe-se, frequentemente, um dispositivo de armazenamento, um chamado banco (de tecidos ou células). Os tecidos são provisoriamente acondicionados e rotulados para envio aos bancos de tecidos onde são definitivamente preparados e conservados até que algum serviço os requisite para aplicação.

São objecto de comunicação à ASST todas as colheitas de tecidos e órgãos e todos os transplantes de órgãos, medula e córnea. A certificação da realização destes transplantes é comunicada pela ASST à Administração Central do Sistema de Saúde, IP, para disponibilização do pagamento dos incentivos aos hospitais que realizaram os transplantes.

Os custos de todo o processo desde a colheita à transplantação são assegurados pelo Sistema Nacional de saúde.

Verónica Cabreira, 3 de Abril de 2010

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Transplante de Face

O transplante de face é um procedimento cirúrgico no qual algumas estruturas da face de uma pessoa são transplantadas para uma outra.

O primeiro transplante de face parcial ocorreu a 27 de Novembro de 2005. A paciente francesa, Isabelle Dinoire, perdeu o nariz, os lábios e o queixo ao ser atacada pelo seu próprio cão. Na cirurgia, os médicos fizeram um implante de pele, gordura e vasos sanguíneos, que foram removidos de um dador com morte cerebral.


 A segunda intervenção cirúrgica deste género realizou-se na China, a um caçador desfigurado pelo ataque de um urso (o transplante afectou dois terços do rosto), que em 2008 veio a falecer.


Connie Culp foi a primeira estadunidense a fazer um transplante facial. A americana, de 46 anos, teve parte da face destruída por um tiro disparado pelo próprio marido em 2004. Como a bala atingiu o seu nariz, as bochechas, o maxilar e um olho, Culp vivia com centenas de fragmentos do projéctil e de ossos alojados no rosto. Para respirar, teve de ser feita uma abertura na traqueia. Após passar por 30 procedimentos médicos nos últimos cinco anos, Connie recebeu o transplante no dia 10 de Dezembro de 2008 numa clínica de Cleveland.


Até agora não existem registos de transplantes totais de rosto, sendo que os transplantes realizados até aqui foram apenas parciais.
Estes tipos de transplante são tecnicamente possíveis, embora complexos do ponto de vista científico.
Os transplantes faciais não são muito realizados mundialmente, devido ao défice de dadores mas, acima de tudo, devido às questões éticas e morais que assume.

Vanda Craveiro, em 1 de Abril de 2010